Roubo de carga caiu 16,7% em 2025 — e mudou de endereço. O que fazer com isso
Em 2025 o Brasil registrou 8.570 roubos de carga — queda de 16,7%. Mas a boa notícia esconde uma ruim: o risco se redistribuiu pelo país, e quem calibrou a prevenção pelo mapa antigo está protegendo a rota errada.
Depois de bater recorde em 2024, o roubo de carga no Brasil recuou. Foram 8.570 ocorrências em 2025, uma queda de 16,7%, com prejuízo direto estimado em cerca de R$ 900 milhões — abaixo do recorde de R$ 1,2 bilhão do ano anterior. Considerando efeitos indiretos (seguro mais caro, custo operacional, preço final ao consumidor), a NTC&Logística estima que o impacto ainda ultrapasse R$ 1 bilhão.
Só que a queda no total nacional é a parte menos útil do dado. O que muda a operação de uma transportadora é onde o risco passou a se concentrar — e aí houve uma reorganização grande. Quem calibrou a prevenção pelo mapa de 2023 está protegendo a rota errada.
O que caiu, o que subiu
Vale separar duas métricas que costumam ser confundidas e levam a conclusões opostas. Número de casos mede quantas vezes aconteceu; participação nos prejuízos mede quanto dinheiro se perdeu em cada recorte. Uma região pode ter poucos casos e muito prejuízo, e vice-versa.
| Região | Participação nos prejuízos (2024) | 2025 | Movimento |
|---|---|---|---|
| Sudeste | 83,2% | 68,1% | Queda de 15,1 pontos |
| Nordeste | 12,2% | 12,8% | Estável, consolidado |
| Norte | 0,9% | 11,2% | Salto de mais de 12x |
| Sul e Centro-Oeste | — | restante | Crescimento distribuído |
Dentro do Sudeste, São Paulo (44,2%) e Rio de Janeiro (37,0%) concentram os prejuízos regionais. O RJ segue como o estado de maior risco relativo, mas SP ainda responde pela maior fatia absoluta.
A troca de liderança nas rodovias
A BR-101 assumiu a liderança nacional em 2025, posição que era da BR-116 em 2024. Mais revelador que a troca de posições é a velocidade com que rodovias antes secundárias ganharam peso:
- BR-010 (Belém–Brasília): saltou de 1,1% para 5,2% dos prejuízos — o corredor que sustenta a expansão do risco no Norte;
- BR-153 (Transbrasiliana): de 3,4% para 7,3%;
- BR-101 e BR-116: seguem como as duas mais críticas, respondendo juntas por perto de 30% dos prejuízos.
Uma quadrilha não some quando a fiscalização aperta em São Paulo — ela se desloca. O mapa de risco de 2025 é o registro desse deslocamento, não de uma vitória.
O que está sendo roubado
| Tipo de carga | 2024 | 2025 | Movimento |
|---|---|---|---|
| Carga fracionada | 52,4% | 50,1% | Ainda lidera com folga |
| Alimentos | 20,1% | 26,5% | Em forte alta |
| Eletrônicos | 6,7% | 7,2% | Leve alta |
| Medicamentos | 1,8% | 3,9% | Dobrou |
O padrão é liquidez. Alimento não tem número de série, não é rastreável depois de descarregado e tem giro rápido no mercado paralelo — por isso subiu seis pontos em um ano. Medicamento dobrou pela mesma razão, com valor por quilo muito maior.
Quando o risco acontece
Aqui vale um cuidado que a maioria dos materiais do setor não toma: os números gerais e os de carga fracionada são diferentes, e misturá-los leva a decidir errado.
| Recorte | Universo geral | Só carga fracionada |
|---|---|---|
| Período de maior risco | Noite: 30,7% · Madrugada: 24,1% · Manhã: 22,4% | Noite: 54,2% |
| Dia mais crítico | Quinta-feira: 21,6% (era 17,1%) | Sexta-feira: 32,8% |
No universo geral, a madrugada perdeu peso (de 28,4% para 24,1%) e a manhã ganhou (de 19,7% para 22,4%). É um sinal operacional relevante: a ideia de que "rodar de dia é seguro" envelheceu.
O que fazer com esses dados
Prevenção de roubo de carga não é comprar equipamento — é reduzir previsibilidade e encurtar o tempo de reação. Na prática:
- Reavalie o mapa de risco a cada trimestre, não a cada ano. Uma rodovia saltou de 1,1% para 5,2% em doze meses. Política de segurança calibrada por dado velho protege o trecho errado;
- Separe a janela de risco por tipo de operação. Fracionada e lotação não têm o mesmo perfil de horário nem de dia da semana — não faz sentido uma regra única de circulação noturna;
- Varie rota e horário nos trechos críticos. Previsibilidade é o que a quadrilha explora: mesma carga, mesmo dia, mesmo horário, mesma parada;
- Reduza o tempo entre desvio e reação. Rastreamento em tempo real com alerta automático de desvio de rota e parada não autorizada vale mais que rastreamento consultado depois do fato;
- Trate o tempo parado como risco. Boa parte das abordagens ocorre em paradas — refeição, descanso, espera para descarga. Defina pontos de parada homologados e registre a chegada e a saída;
- Treine o motorista para o pós-evento. A prioridade é a integridade dele. Protocolo claro de comunicação com a central evita reação de risco e acelera o acionamento;
- Confira a cadeia documental. Carga com CT-e e MDF-e em ordem e comprovação digital de entrega encurta muito a discussão com a seguradora depois do sinistro.
Os três seguros obrigatórios (e o que cada um cobre)
Muita transportadora descobre a diferença entre eles no pior momento possível. O art. 13 da Lei 11.442/2007, na redação dada pela Lei 14.599/2023, exige três coberturas — e a que cobre roubo não é a mais conhecida:
| Sigla | Nome | O que cobre |
|---|---|---|
| RCTR-C | Resp. Civil do Transportador Rodoviário-Carga | Perdas e danos à carga decorrentes de acidente com o veículo |
| RC-DC | Resp. Civil por Desaparecimento de Carga | Roubo, furto e extorsão — é esta a cobertura de roubo |
| RC-V | Resp. Civil do Transportador — Veículos | Danos causados a terceiros |
Vale conferir a regularidade das apólices com atenção redobrada: desde 1º de julho de 2026 a ANTT faz verificação automática dos seguros vinculada ao RNTRC, com os dados enviados pelas seguradoras por webservice.
O que a tecnologia efetivamente entrega
Convém ser honesto sobre o que monitoramento faz e o que não faz. Ele não impede uma abordagem armada. O que ele muda é o tempo entre o evento e a reação — e é aí que está o ganho mensurável. No universo de cargas monitoradas pelas gerenciadoras do ecossistema nstech, a sinistralidade caiu 32% de 2023 para 2024. É uma variação ano a ano nesse universo, não uma comparação entre operações com e sem rastreamento.
No BrainCargo, a posição do veículo, o registro de paradas e a comprovação de entrega ficam no mesmo fluxo da emissão fiscal — então o histórico da viagem já nasce auditável, o que ajuda tanto na resposta ao sinistro quanto na negociação da apólice. Conheça os módulos ou fale com a equipe.
Perguntas frequentes
Quantos roubos de carga o Brasil registrou em 2025?
Foram 8.570 ocorrências, segundo levantamento da NTC&Logística — queda de 16,7% em relação a 2024, quando houve 10.478 registros. O prejuízo direto estimado ficou em torno de R$ 900 milhões, abaixo do recorde de R$ 1,2 bilhão de 2024, mas ainda superando R$ 1 bilhão quando somados os efeitos indiretos.
Se o roubo caiu, por que a preocupação continua?
Porque o risco se redistribuiu. O Norte saiu de 0,9% para 11,2% de participação nos prejuízos, a BR-010 pulou de 1,1% para 5,2% e a BR-101 assumiu a liderança nacional das rodovias. Uma transportadora que opera nesses corredores enfrenta mais risco em 2025 do que enfrentava em 2024, ainda que o total nacional tenha caído.
Quais cargas são mais visadas?
A carga fracionada lidera com 50,1% dos prejuízos, seguida por alimentos (26,5%), eletrônicos (7,2%) e medicamentos (3,9%). O critério das quadrilhas é liquidez: alimento e medicamento têm giro rápido no mercado paralelo e são difíceis de rastrear depois de descarregados.
Qual o horário de maior risco?
Depende do tipo de operação. No universo geral, a noite responde por 30,7%, a madrugada por 24,1% e a manhã por 22,4% — e a manhã vem crescendo. Já em carga fracionada, o período noturno concentra 54,2%. O dia mais crítico no geral é a quinta-feira (21,6%); em fracionada, a sexta (32,8%).
Qual seguro cobre roubo de carga?
O RC-DC (Responsabilidade Civil por Desaparecimento de Carga), que cobre roubo, furto e extorsão. O RCTR-C cobre danos à carga em acidente com o veículo, e o RC-V cobre danos a terceiros. Os três são obrigatórios pelo art. 13 da Lei 11.442/2007, na redação da Lei 14.599/2023. Na subcontratação de TAC, quem contrata os seguros é o contratante do serviço, não o motorista autônomo.
Fontes oficiais
- NTC&Logística — levantamento de roubo de cargas 2025 (8.570 ocorrências, −16,7%), via Logweb
- Portal do Trânsito — distribuição regional, rodovias, tipos de carga e horários (2025)
- Jornal da USP — recorde de 2024: 10.478 roubos e R$ 1,2 bilhão (NTC&Logística)
- nstech — Relatório de Roubo de Cargas
- Lei 11.442/2007, art. 13 (redação da Lei 14.599/2023) — seguros obrigatórios
Conteúdo informativo, não substitui orientação jurídica ou contábil. Confirme sempre as regras vigentes nas fontes oficiais.